Os acontecimentos narrados aqui reverberam até hoje na comunidade acadêmica da cidade de Bolotas. Bolotas, podemos dizer, é a cidade com as mais prestigiadas e meritosas, se é que isso é palavra, universidades da grande nação de Amarelo. O fato dado acontecera em uma tarde de setembro, já bem distante, e foi passado adiante em um falatório extraordinário, às vezes com desconfiança, às vezes com descaso, e alguns fazendo caso e dizendo existir apenas no imaginário do povo. Jamais o bom Dr. Alfredo Alfineda faria tal coisa. Como assim?! Que desrespeito! Era homem que se prezasse, com reputação a zelar no círculo acadêmico.

Sendo assim, nada mais justo que, antes de nos estendermos a prosseguir, o leitor conheça um pouco mais sobre o Dr. Alfredo Alfineda, professor graduado com louvores na Universidade de Bolotas.

O Dr. Alfredo Alfineda levava uma vida calma, apaziguada. Morava um pouco longe da cidade, é bem certo. Dizia-se ser bem excêntrico, com algumas particularidades oriundas de mentes brilhantes. Sabe como é, né? Meio solto dos parafusos. Problema nas caixolas. Você entendeu.

Alfredo morava na Montanha das Cachoeiras, lugar esse que ficava há quase uma hora da entrada da cidade. É muito bonito, bem sei. Um lugar todo verde, com poucas casas, e que mora apenas gente abastada. Mudou-se para ali alguns anos antes, quando conheceu a esposa e se casou. Compraram o terreno e mandaram construir um sobradinho charmoso, feito de vidro e com um cemitério para gatos na parte de trás.

Gostavam de gatos. Bastante. Muito mesmo.

O fato que se sucedeu com o Dr. Alfredo, homem de temperamento bondoso, sempre risonho, meio magricela, mas com barriga, cabelos esfiapados indo embora da cabeça, foi de tamanha repercussão que eclodiu, secretamente, em todos os nichos da cidade. Pouco se falava sobre outra coisa.

Mas, enfim.

O Dr. Alfredo, geralmente de bom humor, levava a vida com tranquilidade. Gastava grande parte do seu tempo na universidade. Graduara-se há muito tempo, com louvor, como já mencionado, em Direito. Depois, continuou os estudos, arrebatando os diplomas de Educação e História, ambos, também, com honra ao mérito. Continuou os estudos na área educacional, virando um doutor logo em seguida.

Foi uma festa só, imagine.

Alfredo era cara gente boa, estava sempre rodeado de professores, alguns com sorrisos bons, outros nem tanto. Certos colegas lhe repudiavam a presença.

- Esse rapaz é um gênio! – dizia uns professores.

Outros, lhe lançavam olhar cínico e mortal. A verdade é que o Alfredo nem ligava. Conforme os anos passaram, foi ficando pela universidade e virou professor do curso de educação. Conheceu muita gente. Deu aulas em mais de uma universidade da cidade. Palestras aqui e ali. Fora convidado a ser pró-reitor! Imagine só, quanta honra!

Recusou.

Disseram que era por modéstia. Certas cobras ficaram com inveja e tentaram lhe derrubar do pedestal. Não conseguiram porque Alfredo era gente boa. Estava sempre tranquilo, quase adorado pelos alunos, e nos intervalos podia ser encontrado na praça da cidade, sentado em frente à biblioteca pública, comendo hambúrguer de um trailer que ali perto se instalava.

Vivia quietão, apenas observando, enquanto a vida dos outros, atarefada, passava esvoaçante.

Eis que, devo lhe contar, os fatos anteriores ao fato dado tal qual queremos, neste documento, fatorar: o Dr. Alfredo brigara, dias antes, com uma professora. É verdade: não se bicavam. A professora era arrogante, mal criada, como dizem por aí, e cheias de não-me-toques malucos, sempre jogando o ego na frente. O Dr. Alfredo não gostava de egos. E, como chefe de seu departamento, colocou os alunos na frente de tudo.

- Tu não tens o direito de retirar minhas classes, doutor hamburgher! – falava a professora, qual não citaremos nome em ordem de não criar problemas, enfurecida.

O Dr. Alfredo não respondeu, e deixou-a falando sozinha. A professora, a pau da vida, fez dos dias de Alfredo caos no departamento. Difamou, xingou, brigou. Nada adiantou. Dr. Alfredo tinha respeito. Não era egocêntrico, nem cheio de pompa, mas virara chefe do departamento por acidente. Foi subindo, subindo, subindo, sem puxar saco, e lá caiu porque era gente fina e fácil de lidar.

Um dia, a panela de pressão estourou.

Fora numa tarde de setembro, se bem recordo. A cidade de Bolotas estava um furor, e muitos dos estudantes desta grande e magnifica cidade, estavam presentes. Era grande evento coordenado pelas universidades para celebrar as colheitas de Amarelo e trazer expositores. Haveria gente importante lá. Como a prefeita, dona moça, toda chiquetosa, que quase falou nada com nada. Essa gente raramente fala algo com algo. Estavam também os reitores das três universidades grandiosas, os chefes de departamento de cada curso, e a tal professora doutora mestra não-sei-das-quantas e quem se importa? Os reitores, esses tinham um espaço especial, com cadeiras acolchoadas, vermelhas e bonitas, tronos respeitáveis de suas posições, diferente do resto, que ficava em pé se paparicando de mentirinha e suando em bicas.

O Dr. Alfred comia feito um louco os petiscos saborosos oferecidos no evento de abertura feito apenas para convidados.

Nem prestava atenção nos discursos. Simplesmente comia. Hora ou outra, vinha um acadêmico lhe cumprimentar e parabeniza-lo pelo novo trabalho publicado. “A Ordem Vigente dos Assuntos Legais da Grande Nação de Amarelo e o Conselho Feminino Visionado da Nação com Base no Feminismo Estagnado das Nações da América Latina” ou algo que o valha estava tendo sucesso. Nem escutava. Pensava apenas que os canapés, o presunto e os ovos de codorna estavam maravilhosos. E sentia certo calor. A gravata estava sufocando-o. Olhou ao seu redor. Todos de gravata e terno. As mulheres de vestidos chiques. Todos lhe dando os parabéns e sorrindo, quando raramente o faziam.

Então, a gota d’agua. A bendita professora doutora!

- Ora, Dr. Alfredo. Vejo que te convidaram. Parabéns pelo trabalho – disse com a voz presa na garganta e meio de taquara rachada.

O Dr. Alfredo inclinou a cabeça e fitou os olhos dela.

- Nem sabia que tinha alma aí – e deu uma bela gargalhada.

A professora segurou o ar dentro dos pulmões e sorriu com graça. Continuou à sua volta, assim como todos os outros acadêmicos.

- Então, Alfredo, qual é a próxima parada? Ouvi dizer que o trabalho chegou nos blocos econômicos da América Latina. Já te chamaram para discursar na Argentina? – inqueriu outro sujeito.

Alfredo balançou a cabeça, comendo feito um porco.

- E na Europa? – perguntou mais um.

O ar condicionado tinha pifado. O reitor discursava, falando eloquente, sobre umas coisas que, na verdade, ninguém prestava atenção. Alfredo simplesmente concordava com tudo, dizia que sim, que talvez, e dava gargalhadas, atrapalhando o discurso. Então, de repente, perguntou:

- Não tá quente aqui não?

- Ora, acho que sim, Dr. Alfredo... – declarou a professora. – Com certeza.

Foi aí que a coisa começou.

O Dr. Alfredo afrouxou a gravata e a jogou no chão. Começou a desabotoar o paletó e o colete, e então jogou no chão. Tirou os sapatos e as meias pretas. Removeu a camisa pela cabeça mesmo, mostrando a pança peluda! Estava ali, em sua natureza, puro. Jogou as roupas todas no chão, empurrando com o pé, para baixo de uma mesa. Foi adiante: removeu a roupa debaixo, mostrando as nudezas, exibindo o pequeno bilau para a multidão de acadêmicos.

Houve uma comoção, é verdade, mas apenas quando Alfredo se ausentou, bem mais tarde. O Dr. Alfredo, que gozava de tanto prestigio, agora gozava da nudez. E a professora? Não tirou o olhar de seus documentos. Naquele instante, a comunidade acadêmica queria saber de seu trabalho, de seu futuro, e continuaram-lhe a falar com normalidade. Queriam mostrar que conheciam o grande homem, e inquerir, por trás daquelas cabecinhas maquinais, o que ganhariam com o sujeito desnudo. Perguntavam sobre o que viria depois, o que iria se suceder.

- Tens planos de ir ver os americanos, lá em cima, Alfredo? – perguntou o reitor. – Fui certa vez, bem sabes, apresentar minha tese...

A mente do Dr. Alfredo desligara-se enquanto devorava o risoto quentinho que tinha sido servido. Por horas a fio, escutou as faladeiras, as gabações, os artigos publicados, o mundo cheio de dinheiro.

- Sabe como é o nosso governo. Tanto tira e pouco dá! – falou o reitor da Universidade de Bolotas em dado momento, dando uma gargalhada.

- Mas é tu um burguês. O que te tiram? – retrucou Alfredo, seríssimo, cuspindo risoto e balançando a geringonça.

O reitor riu ainda mais diante do homem nu, como se fosse uma piada. Lá pelas tantas, quando o evento vinha a se encerrar, e o Dr. Alfredo não tinha feito nada além de responder milhares de perguntas com o balançar de cabeça, sem que ninguém percebesse sua nudeza, e então encheu as mãos de canapés, ovos de codorna e petiscos. Estava cansado. Queria sentar.

Com as nudezas balançando para a esquerda e direita, sentou-se em uma das cadeiras especiais, confortável, vermelha, deixando para sempre a marca de sua bunda redonda e liberta. Os intelectuais lhe seguiram, copiando a ideia de alguém que tinha copiado a ideia de outro alguém que já morrera. E o que sobrava disso?

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